Carta aberta para a minha eu de 2011..
23:31:00Minha pequenina, encontrei-te outra vez..
Encontrei-te no meio de palavras escritas há tantos anos, em textos que provavelmente escreveste sem imaginar que um dia voltarias a lê-los com outros olhos, encontrei-te nos “para sempre”, nos “nunca te vou esquecer”, nos “preciso de ti”, nos amores que acreditavas que seriam eternos, nas amizades que querias guardar para toda a vida, nas pessoas de quem sentias saudades e em todas aquelas vezes em que escreveste que tinhas de seguir em frente enquanto, lá no fundo, ainda desejavas ficar e reconheci-te imediatamente porque, apesar de tudo o que aconteceu entretanto, ainda estás aqui. Cresceste, mudaste, a vida obrigou-te a crescer de maneiras que naquela altura não imaginavas mas não mudaste inteiramente e talvez ainda bem.
Continuas a amar profundamente, a guardar pessoas dentro de ti mesmo depois de já não fazerem parte dos teus dias, a lembrar-te dos pequenos momentos, a acreditar que algumas pessoas chegam à nossa vida por alguma razão, a sentir saudades, a querer acreditar no amor. Mas hoje consigo perceber uma coisa que tu ainda não conseguias passaste grande parte da tua vida com medo de que as pessoas fossem embora e, por causa desse medo, houve vezes em que fizeste tudo para que ficassem.
Deste mais, esperaste mais, perdoaste mais, tentaste compreender mais, aceitaste silêncios, aceitaste ausências, aceitaste menos do que aquilo que desejavas porque uma parte de ti acreditava que ter pouco era melhor do que não ter nada.E quando alguém ia embora, raramente pensavas apenas:"Aquela pessoa não conseguiu ficar.", pelo contrario pensavas "O que há de errado comigo?", "Porque é que não fui suficiente?", "O que poderia ter feito diferente?", "E se tivesse dito aquilo?", "E se tivesse ficado?", "E se tivesse tentado mais uma vez?".
Quantas vezes carregámos responsabilidades que nunca foram nossas, quantas vezes confundimos alguém não saber amar-nos com nós não sermos dignas de amor, quantas vezes tentámos ser suficientes para pessoas que simplesmente não tinham capacidade, vontade ou espaço para nos oferecer aquilo de que precisávamos. Hoje percebo isso mas quero ser sincera contigo perceber não significa que já saiba viver assim todos os dias. Ainda tenho dias em que volto a ser tu, em que tenho medo de não ser suficiente, em que uma ausência me faz questionar o meu valor, em que sinto saudades de alguém que sei que talvez não consiga dar-me aquilo de que preciso, em que digo que me escolho e, algumas horas depois, dou por mim novamente a pensar no que poderia ter sido.
Ainda tenho esperança em algumas coisas, que ainda existem pessoas que o meu coração não conseguiu transformar simplesmente em passado, ainda imagino reencontros, ainda penso que talvez algumas histórias possam ter um capítulo diferente e sabes que mais? Não quero castigar-me por isso porque finalmente comecei a compreender que escolher-me não significa deixar de amar alguém mas significa não deixar de me amar para conseguir continuar a amá-lo e esta diferença demorou muitos anos a chegar.
Durante muito tempo, amor significava para nós ficar, aguentar, esperar, perdoar, acreditar, dar mais uma oportunidade. Pensávamos que, se o sentimento fosse suficientemente verdadeiro, conseguiríamos ultrapassar qualquer coisa, ainda acredito que o amor pode ser enorme mas hoje sei que o amor sozinho nem sempre chega. É preciso presença, verdade, reciprocidade, segurança, que duas pessoas queiram construir a mesma coisa. Porque ninguém deveria ter de implorar para se sentir escolhido dentro de uma história onde entrega o coração inteiro.
Tu não sabias isso e eu não estou zangada contigo por não saberes, tu só querias ser amada talvez porque, muito antes dos namorados, das amizades perdidas e de todas as pessoas que vieram depois, já existia dentro de ti uma menina com medo da ausência.
Eu reli aquele texto onde falavas da infância, das brincadeiras, da praia, dos castelos de areia, dos aniversários, do Natal, dos abraços e percebi que talvez aquilo de que sentias realmente saudades não fosse apenas de ser criança era de te sentires segura, de não teres de pensar se alguém ficaria amanhã, de poderes simplesmente amar sem antecipar a perda. Talvez por isso, quando crescemos, tenhamos procurado tantas vezes nas pessoas a sensação de casa e talvez por isso tenha doído tanto quando algumas delas partiram.
Minha pequenina, algumas partiram mesmo e algumas perdas foram muito maiores do que aquilo que tu alguma vez poderias imaginar enquanto escrevias aquele blog. Perdemos pessoas que amávamos, perdemos versões nossas, perdemos futuros que tínhamos imaginado e houve um amor pequenino que chegou até nós e partiu antes de conseguirmos segurá-lo nos braços. Tu, que já sonhavas tanto.. Um dia soubeste o que era amar alguém antes sequer de lhe conhecer o rosto e também soubeste o que era ficar com todo esse amor nos braços sem ter onde o entregar. Há coisas que ainda doem, há saudades que não passaram, há perguntas para as quais provavelmente nunca teremos resposta e eu gostava muito de poder voltar atrás e proteger-te de tudo, mas não posso.
Por isso, se pudesse sentar-me hoje ao teu lado, não te diria: "Vai ficar tudo bem." , porque seria injusto. Nem tudo ficou bem, algumas coisas deixaram cicatrizes, algumas mudaram-nos para sempre, algumas ainda fazem chorar. Eu apenas me sentaria ao teu lado e ficaria. Porque talvez tenha sido exatamente disso que precisaste durante tanto tempo que alguém ficasse.
E sabes uma coisa curiosa? Encontrei uma frase tua, escrita há tantos anos: "Conseguir crescer e mudar sem mudar inteiramente." Conseguimos, pequena, acho que conseguimos. Não nos tornámos frias, não deixámos de acreditar completamente, não aprendemos a tratar as pessoas como descartáveis só porque algumas nos trataram dessa maneira, ainda somos aquela pessoa que escreve quando sente, que guarda memórias, que ama intensamente, que se preocupa, que gostaria de ver toda a gente bem. Só começámos finalmente a perceber que nós também fazemos parte dessas pessoas de quem precisamos de cuidar e ainda estamos a aprender. Não te vou mentir, há dias em que não consigo escolher-me, há dias em que aquilo que o coração quer fala mais alto do que aquilo que eu sei que mereço, há dias em que penso que já ultrapassei alguma coisa e descubro que afinal ainda dói, há dias em que tenho vontade de voltar para lugares dos quais sei por que razão saí, mas existe uma diferença hoje eu consigo reconhecer quando me estou a abandonar e estou a aprender a voltar.
Talvez seja isso crescer, não deixar de cair mas perceber mais depressa onde caímos e saber o caminho de regresso a nós. Durante muitos anos perguntámos “O que tenho de fazer para alguém me escolher?” mas hoje estou a tentar fazer uma pergunta diferente: “Porque é que tenho de me abandonar para impedir alguém de partir?” , ainda não tenho todas as respostas mas já sei uma coisa não quero mais um amor que me obrigue a diminuir para caber, ter de implorar presença, confundir ansiedade com intensidade, chamar destino àquilo que me destrói, receber migalhas e convencer-me de que são suficientes apenas porque vêm de alguém que amo.
Quero um amor onde consiga respirar, onde não precise de adivinhar, onde palavras e atitudes contem a mesma história, onde alguém olhe para mim e não tenha dúvidas de que quer estar e, se algum dia uma história antiga regressar, não quero continuar exatamente de onde ficou, quero que seja outra história com outras escolhas, com verdade, com segurançan e acima de tudo com duas pessoas inteiras. Porque agora percebo que amar alguém não pode custar-me a mim e talvez ainda demore até conseguir viver completamente de acordo com estas palavras, talvez volte a falhar, volte a ter saudades, talvez ainda volte a acreditar demais mas quero fazer-te uma promessa não vou prometer que ninguém nos vai abandonar outra vez, não posso controlar isso, nem vou prometer que nunca mais vamos sofrer que também não posso, não vou sequer prometer que nunca mais vamos voltar atrás conheço-nos demasiado bem para fazer promessas perfeitas. Prometo apenas isto, quando te abandonares outra vez, eu vou procurar-te, quando achares que não és suficiente, eu vou lembrar-te de tudo aquilo que és, quando quiseres aceitar menos por medo de perder alguém, vou tentar lembrar-te que perder-te a ti seria muito pior, quando estiveres cansada de ser forte, não te vou obrigar a sê-lo, quando quiseres chorar, choramos, quando tiveres saudades, sentimos saudades, quando ainda amares alguém que já não podes ter da maneira que gostarias, não te vou envergonhar por isso só não te vou deixar esquecer que tu também mereces o amor que passaste a vida inteira a dar aos outros e talvez seja esta a parte mais bonita de toda a nossa história.
Passámos tantos anos à espera, à espera que alguém voltasse, que alguém percebesse, que alguém finalmente nos escolhesse, que alguém dissesse "Eu fico." e agora começo a perceber que talvez aquela menina estivesse à espera da pessoa errada, que quem ela estivesse à espera que voltasse fosse eu, demorei, perdi-me muitas vezes e ainda me perco, mas voltei a quando olho para todos aqueles textos que escreveste, não vejo uma menina fraca, dramática ou demasiado sensível. Vejo uma menina que só queria amar e ser amada, que tentou transformar dor em palavras porque talvez ainda não soubesse o que fazer com tudo aquilo que sentia, vejo alguém que caiu muitas vezes e que, sem sequer saber o que a vida ainda lhe reservava, já escrevia: "há que cair 1000 e levantar 1001." tinhas razão caímos mais vezes do que imaginavas, mas olha para nós ainda estamos aqui, ainda sentimos,. ainda sonhamos, ainda acreditamos e, principalmente, estamos finalmente a tentar construir dentro de nós aquilo que durante tantos anos procurámos nos outros um lugar seguro para ficar.
Por isso vem comigo, pequenina não precisas de desaparecer para eu conseguir crescer, eu levo-te comigo com os teus medos, com os teus sonhos, com a tua maneira exageradamente bonita de acreditar nas pessoas. Só te vou ensinar uma coisa que ninguém conseguiu ensinar-nos antes amar os outros é bonito mas não precisamos de nos abandonar para provar esse amor.
E quando tudo voltar a doer, porque às vezes vai doer, lembra-te daquela frase que um dia conseguimos finalmente escrever: "Tudo passa. E até passar, eu fico comigo." por ti, por mim, por todas as versões nossas que ficaram pelo caminho, pela menina que fomos, pela mulher que somos e principalmete por aquela que ainda estamos a aprender a ser.
Desta vez, eu não te abandono. 🤍
Com todo o amor que durante tantos anos procuraste nos outros,
Tu.
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