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Há dias em que nem eu sei explicar o que vai cá dentro.
É uma mistura estranha de saudade, cansaço, amor, medo e esperança. Como se dentro de mim existissem várias versões minhas ao mesmo tempo: a que ainda sente falta, a que já percebeu que merece mais, a que tem medo de voltar a sofrer e aquela que, apesar de tudo, continua a acreditar que um dia as coisas vão fazer sentido.
Carrego ausências que nunca deixaram verdadeiramente de doer, carrego pessoas que já não posso abraçar, momentos que ficaram por viver e um amor tão pequeno no tempo, mas tão infinito dentro de mim. Há saudades para as quais nunca vou encontrar palavras suficientes, há um cantinho do meu coração que vai estar sempre ocupado por quem partiu cedo demais e por quem foi casa quando eu mais precisei.
Talvez seja por ter conhecido tão bem a ausência que eu ame desta maneira. Quando gosto, gosto por inteiro, cuido, fico, tento, perdoo, dou mais uma oportunidade e às vezes mais outra. Tenho esta mania de procurar o lado bom das pessoas, mesmo quando o lado mau delas já me magoou vezes suficientes para eu saber que devia ir embora.
Já me questionei muitas vezes se sou suficiente, se algum dia alguém vai olhar para mim e ter a certeza sem dúvidas, sem metades, sem precisar de me perder para perceber o meu valor.
Durante muito tempo achei que precisava que alguém me escolhesse para finalmente sentir que era digna de amor. Hoje começo, devagarinho, a perceber que talvez a escolha mais importante da minha vida seja aquela que estou finalmente a aprender a fazer: escolher-me a mim e isso não significa que deixei de amar, não significa que esqueci, não significa sequer que algumas coisas deixaram de doer, significa apenas que estou cansada de me abandonar para conseguir ficar na vida dos outros.
Ainda tenho sentimentos que não sei onde guardar, ainda existem pessoas que ocupam lugares em mim que provavelmente nunca ficarão completamente vazios e aprendi que não preciso de arrancá-las do coração para conseguir continuar. Posso amar alguém e, ainda assim, escolher-me, posso desejar-lhe tudo de melhor e não correr atrás, posso guardar aquilo que vivemos com carinho sem aceitar novamente aquilo que me destruiu, posso acreditar que, se a vida algum dia nos voltar a colocar no mesmo caminho, terá de ser diferente , um recomeço, nunca uma continuação daquilo que já sabemos como terminou.
Porque hoje eu quero paz, quero um amor que venha para somar e não para me fazer questionar constantemente o meu lugar, quero alguém que tenha medo de me perder, mas principalmente vontade de ficar, quero reciprocidade, presença, honestidade, segurança, quero conseguir amar sem estar constantemente preparada para ser abandonada mas, antes disso tudo, quero aprender a dar a mim própria aquilo que passei tantos anos à espera que alguém me desse aainda estou a aprender.
Há dias em que sou forte e outros em que volto a ser aquela menina que só queria sentir que alguém ficava. Há dias em que acredito profundamente que coisas bonitas ainda me esperam e outros em que tenho medo de que o meu coração já tenha suportado demasiado mas continuo aqui e talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre mim.
Depois das perdas, depois das despedidas, depois das mentiras, depois das noites em que chorei coisas que ninguém sabia, depois de me sentir insuficiente, depois de perder pedaços de mim em pessoas e situações que não podia controlar eu continuo aqui. Ainda consigo amar,, ainda consigo cuidar, ainda consigo desejar coisas bonitas, ainda consigo acreditar.
Só estou a aprender que ter um coração enorme não significa ter de permitir que toda a gente entre e faça dele o que quiser. Agora quero cuidar de mim sem pressa, sem precisar de ter todas as respostas, sem saber exatamente como será amanhã. Um dia de cada vez e quando a saudade apertar, eu vou senti-la, quando doer, vou permitir-me chorar, quando tiver vontade de desistir, vou lembrar-me de todas as vezes em que achei que não conseguiria e, mesmo assim, consegui chegar até aqui. "Porque toda a vez que choveu… parou." e talvez neste momento eu ainda não esteja exatamente onde quero estar,
mas já não estou onde estava, estou no meio do caminho.
A aprender a perdoar-me, a fazer as pazes com aquilo que não posso mudar, a deixar de procurar respostas onde talvez nunca existam, a amar sem me abandonar, a aceitar que algumas pessoas serão sempre importantes, mesmo que não possam ocupar o lugar que um dia imaginei para elas e, acima de tudo, a perceber que eu também mereço ser a pessoa por quem alguém fica mas enquanto esse alguém não chega, ou enquanto a vida decide o que ainda tem reservado para mim, quero ficar eu.
Por mim.
Desta vez, não me abandono. 🤍
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