Há dores sobre as quais eu quase nunca sei falar.
Não porque me faltem palavras, mas porque há sentimentos que parecem grandes demais para caber nelas. Posso tentar explicar a saudade, posso dizer que dói, que há dias melhores e outros em que tudo volta a pesar, mas nunca consigo explicar verdadeiramente aquilo que ficou dentro de mim depois de perder algumas das pessoas que mais amei. Às vezes olho para mim e penso em tudo o que já tive de aprender a suportar.
Há uma parte da minha vida que ficou dividida entre o antes e o depois de certas despedidas. E, por mais tempo que passe, existem momentos em que ainda me custa acreditar que são definitivas.
Perdi o meu pai. Perdi o meu filho. E perdi a minha avó.
Escrever estas três frases já me custa, porque por trás de palavras tão pequenas existem dores enormes. Existem histórias, existem “e se…”, existem coisas que ficaram por viver e existe uma quantidade de saudade que não sei onde colocar. Mas se há uma ausência que mexeu profundamente com aquilo que eu sou, foi a da minha avó. Porque ela não era simplesmente a minha avó, era uma daquelas pessoas que eu achava, no fundo do coração, que estariam sempre ali e talvez uma parte de mim ainda não tenha aceitado que não está.
Há momentos em que tenho tanta coisa para lhe contar que quase me esqueço de que já não posso pegar no telefone, ouvir a voz dela ou simplesmente estar ao lado dela e é nesse instante que a realidade volta a bater.
A minha avó morreu, já não posso abraçá-la, já não posso dizer-lhe que preciso dela, já não posso criar mais uma memória com ela e há dias em que esta verdade ainda me parte exatamente como se eu a estivesse a ouvir pela primeira vez.
Eu conheço o luto de várias maneiras...
Há dias em que o luto pesa mais do que eu consigo explicar. Eu perdi pessoas que nunca deveria ter precisado de aprender a viver sem e cada um deles deixou um vazio diferente em mim.
Há coisas sobre o meu pai que ainda doem. Há uma ausência que ficou, coisas que o tempo já não me vai permitir viver e uma parte da minha história onde existirão sempre espaços em branco.
Depois existe o meu filho e talvez ninguém consiga compreender completamente o que é sentir falta de alguém que quase só existiu dentro de nós. Eu não tenho anos de fotografias para recordar. Não tenho vídeos para voltar a ver. Não tenho uma voz gravada para ouvir quando as saudades apertam, tenho aquilo que imaginei e às vezes isso dói ainda mais. Porque eu não perdi apenas o meu filho, perdi tudo aquilo que imaginei viver com ele.
Nunca soube como seria o seu sorriso, nunca soube a quem seria parecido, nunca o ouvi chamar-me mãe, não o vi crescer e mesmo assim, amei-o. Amei-o com um amor que não precisou de tempo para existir. Há uma parte de mim que ficará para sempre presa à pergunta: “Como seria se estivesses aqui?”
E depois há a minha avó. A minha avó é diferente, porque quando ela morreu, eu não perdi apenas alguém que amava, eu perdi casa e acho que essa é uma das coisas que mais me custa admitir. Porque posso ter pessoas à minha volta, posso sorrir, posso trabalhar, posso continuar a minha vida, posso parecer perfeitamente bem mas há momentos em que tudo o que eu queria era voltar a ser aquela menina que ainda tinha a avó. Só isso, voltar por cinco minutos, sentar-me ao lado dela, ouvir a voz dela, contar-lhe o que aconteceu na minha vida desde que partiu, dizer-lhe quantas vezes precisei dela, quantas vezes pensei: “Se a minha avó estivesse aqui…” , quantas vezes tive de engolir as lágrimas e resolver sozinha coisas para as quais só queria o colo dela.
Eu queria contar-lhe as minhas conquistas, queria contar-lhe as minhas desilusões, queria contar-lhe sobre as pessoas que chegaram, as que foram embora, as vezes em que me partiram o coração e todas aquelas em que eu própria achei que já não conseguia mais, queria que ela soubesse quem me tornei mas, principalmente, queria perguntar-lhe se ela teria orgulho em mim. Porque às vezes sinto que cresci desde que ela partiu, mas uma parte de mim continua exatamente no mesmo sítio, a querer a avó de volta e ninguém me avisou que crescer também podia significar isto precisar desesperadamente de alguém que já não pode voltar.
Há dias em que estou bem com a saudade, consigo lembrar-me dela e sorrir mas há outros em que não quero aceitar coisa nenhuma, não quero ouvir que está num lugar melhor, não quero ouvir que o tempo cura, não quero ouvir que tenho de ficar com as boas memórias. Eu sei, mas às vezes eu não quero uma memória. Quero a minha avó, quero o abraço dela, quero a voz dela, quero a presença dela, quero aquilo que nenhuma fotografia, nenhuma lembrança e nenhuma palavra consegue devolver e dói perceber que posso viver mais quarenta, cinquenta ou sessenta anos e nunca mais vou poder abraçá-la. Essa parte do luto assusta-me, a vida continua a acontecer e ela não está cá para assistir e eu continuo a viver coisas que queria tanto contar-lhe.
Talvez seja por isso que existem dias em que a saudade parece tão recente, porque o mundo continuou mas o meu amor por ela não recebeu a notícia de que tinha de acabar e nunca vai receber.
O meu pai deixou uma ausência em mim. O meu filho deixou um lugar no meu coração que ninguém poderá ocupar, porque aquele lugar será sempre dele. Mas a minha avó...A minha avó levou um bocadinho de mim com ela, levou a menina que se sentia protegida só porque ela existia, levou aquele lugar onde eu não precisava de ser forte e talvez seja isso que mais me faz falta.
Porque eu aprendi a levantar-me, aprendi a engolir lágrimas, aprendi a sobreviver a coisas que achei que nunca conseguiria suportar, aprendi a dizer “está tudo bem” mesmo quando não estava mas às vezes estou cansada de saber sobreviver, às vezes só queria poder ser pequena outra vez, encostar a cabeça no colo da minha avó e deixar que, por alguns minutos, fosse outra pessoa a convencer-me de que tudo ia ficar bem.
Tenho três lutos dentro de mim. Três amores. Três ausências. Não preciso de escolher qual deles merece mais lágrimas, mas há uma saudade que tem um lugar diferente.. a dela.
Porque há pessoas que amamos e depois existem aquelas que, sem percebermos, são uma parte das nossas fundações a minha avó era isso. E quando uma fundação desaparece, podemos reconstruir-nos, podemos continuar de pé, podemos até voltar a ser felizes, mas nunca voltamos a ser exatamente a mesma casa. Por isso, se me perguntarem se já ultrapassei o luto, a resposta é não, eu não ultrapassei, eu apennas aprendi a caminhar com ele. Há dias em que vai silencioso ao meu lado e há outros em que pesa tanto que quase tenho de o carregar ao colo mas continuo...
Com o meu pai na minha história.
Com o meu filho no meu coração.
E com a minha avó em tudo aquilo que ela deixou em mim.
Porque algumas pessoas morrem mas há amores que não sabem morrer. E o meu por eles é um desses. 🤍
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